Otários

Em cinquenta anos, o Homem chegou à lua, colocou vários satélites no espaço, mostrou-nos a beleza cósmica, pôs o James Webb a demonstrar como se formaram as galáxias há 13 mil milhões de anos, e anunciou que em 2024 terão início as primeiras viagens comerciais a Marte. Visto de lá de cima, imagino que Portugal […]

Deus me livro

A tarde baloiça no seu manto tórrido, deixando que a luz escorra pelo casario. Os gestos, o movimento, os pés, muitos pés, formam caminhos. A Praça do Comércio, cinzelada entre duas antigas igrejas, desapodreceu. Quando os pés andam, o caminho renasce. A Feira do Livro de Coimbra foi a chave que abriu o portão de […]

O beijocas

Marcelo irrompe da multidão em folia e embica direito à barriga proeminente. Os olhos de Marcelo têm pontaria para as vislumbranças. Sabem causar sensações virais. Curvado sobre a sagrada barriga, beijou-a comovidamente. Cercada pela boca beijoqueira de Marcelo, vendo os seus lábios todos mamíferos, Marina Dias não resistiu ao excesso de afeto presidencial e consta que até lhe afagou a cabeça com a mão direita.

O MUSGO DO TEMPO

“Anda, dá-lhe um beijo”. Eu resisti. Fiz que não com a cabeça. “Dá-lhe um beijo”, repetiu a outra mulher com expressão de sentença. Eu fui, a medo. Subi só um degrau. A mulher chamou-me para mais perto e mandou-me dar um beijo à aniversariante. Só que ela tinha pelos no buço e no queixo. Pelos grossos que picavam. Segurou-me com as duas mãos aranhiçadas e puxou-me para si. Olhei-lhe os seus poucos dentes e virei-me como pude para lhe dar apenas a contrária face. Ela repenicou um beijo, apertando-me a cara contra a dela. Muito boquifechado, mordi a boca e fiquei com a bochecha a arder. Passei com as costas da mão no rosto, a limpar o fedor do beijo.

Os abismos

Estamos a fazer o mapa da viagem, disse ele, subitamente. Disse-o sem que as ideias tropeçassem nas palavras. Por isso a resposta saiu pronta, como um pirilampiscar de olhos. Disse-o espontaneamente e sem obstruções. Como se fosse fácil justificar o que andam os físicos e os astronautas a fazer pelo espaço, quando há tanto para […]

Os vês pelos fês

Era uma vez um menino que trocava dos vês pelos fês e os fês pelos vês. Em vez de vazia ele escrevia fazia. A valsa era falsa. Para ir à vila ficava na fila, em vez de farinha ele trazia a varinha. Em vez da faca desenhava uma vaca. O marido da vaca era o […]

OUTRA VEZ A HISTÓRIA DE UM CAMELO

Escrevi uma vez um artigo em que perguntava “qual é coisa, qual é ela, tem duas bossas e não é um camelo?”. A resposta era dada mais à frente, justificando que era Portugal quem tinha as duas protuberâncias – Lisboa e Porto – e que na cova ficava todo o resto do País. Um território […]