Era uma vez um homem que tinha quase tudo o que de suficiente a vida podia oferecer-lhe. Contudo, insatisfeito, o homem começou a lamuriar-se por não ser rico, por não ter uma casa com muitos quartos, por não ter um carro com chauffeur. Ao passar pelo mais requintado restaurante da cidade, atirou os olhos muito lá para dentro. Mais olhos que barriga. Invejou o serviço, as luzes, o guardanapo branco preso ao pescoço dos comensais e aquele ar solene que só quem tem muito consegue pôr.

O homem, que tinha quase tudo o que de suficiente a vida podia oferecer-lhe, achou-se pobre. Como se até aí tudo no seu bolso fosse um sumiço. Começou a deitar presságios à vida desgraçada que tinha. Foi para casa e, antes de deitar-se, fez uma prece.

Na manhã seguinte tinha um papel debaixo da porta propondo-lhe a mudança de vida. Ele não hesitou. Passou a ter, todos os dias, debaixo da mesma porta, um envelope cheio de dinheiro. Ele não queria saber de onde vinha, não andava atrás de explicações.

O homem que desejava ser rico começou a ir todos os dias ao restaurante. Havia até uma mesa sempre reservada para si, no centro da sala, por baixo do candeeiro de lustre, que o próprio gerente lhe havia atribuído. Chamavam-lhe Senhor e seguravam-lhe no chapéu. O porteiro estendia a mão e ele, tomando jeitos, colocava nela o sobretudo. Anafadamente, cabeça lisa como um cotovelo, seguia de nariz espetado à frente dos olhos, copiando expressões de enfado que via fazer aos outros. Puxava para si a cadeira e, nas sozinhezas da mesa, mandava vir o habitual hambúrguer. Era então um regalo vê-lo hamburguesar-se. De guardanapo atado ao pescoço, mangas excedentárias por fora do casaco, concisas palavras, apenas fazendo reparos aos istos e aos aquilos.

O homem deixou de trabalhar. Aliás, passou a considerar que trabalhar era uma forma terrível de ganhar a vida. Certa vez foi chamado ao telefone. Era o homem do banco. Perguntou-lhe se estava tudo bem com o dinheiro que lhe enviava. Mas que agora era tempo de o devolver, com juros. O homem vertia-se em desculpas. Rechonchoroso, disse que não sabia que o dinheiro era do banco. “De quem mais podia ser?”, ouviu do outro lado da linha. O homem havia feito um pacto escorpiónico com o dinheiro: tomara-lhe o gosto, jurara-lhe devoção. Todavia, depois de acomodado, o dinheiro encarregar-se-ia de o converter em escravo de pagamentos, de provações, de noites em branco, de infelicidade.

Matutando sobre como pagar, o homem olhou-se ao espelho e não se viu. Viu outro. Procurou-se nos refegos da cara, muito empançado. Voltou ao restaurante, não para comer mas para espreitar. Curiosamente não encontrou as caras de sempre. “Teriam mudado de cidade?”, questionou-se. Mas não. Passou a encontrá-los na fila do banco, baratonteando em remorsos, de bolsos vazios, preocupados com o dinheiro que deixaram de ter.

Amaldiçoou a hamburguesia, essa classe em que ingressara, e a ilusão de fazer parte dela. O dinheiro, como qualquer serpente, dança a melodia do encantamento. Quando a música acaba, alguém tem de pagar a festa. O banco não pode sair a perder e ganha muito com o mal dos outros.

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