Uma cadeira é uma cadeira. Tem quatro pernas e um encosto para as costas. Custa-me perceber, por isso, que continuemos a chamar cadeiras às disciplinas. Na idade média os professores davam as suas lições sentados, lendo aos alunos. A cadeira era um símbolo de poder e de autoridade, era o seu trono. O substantivo cadeira provém de “cathedram”, que evoluiu para “cátedra”, culminando em “cadedra”. Vem daí a denominação cadeira.

Hoje atravessa-nos a língua um nome mais composto, mais cerimonioso e ininteligível. Os impressos administrativos designam-na por unidade curricular. Prefiro, por isso, chamar-lhe cadeira. Do-mal-o-menos. Ainda que seja uma cadeira que não se parece com uma cadeira. Aliás, é tão inadequado que, numa, é requerido utilizar-se o cérebro, ao passo que na outra não fazemos senão assentar as nossas excedências. A mudança das terminologias tem sido acentuada. O professor, que agora é docente, não ensina, leciona, e não tem a seu cargo cadeiras, tem, sim, unidades curriculares. Já não dá aulas, dá um tempo.

Tem tempo? Dizendo como sei: numa das cadeiras em que sou professor e dou as minhas aulas, abordei um tema clássico das teorias da comunicação chamado “Cultural Studies”. Na véspera tinha lido a notícia do projeto de candidatura de Oeiras a capital europeia da cultura, estimando investir nisso qualquer coisa como quatrocentos milhões de euros, incluindo a recuperação de edifícios históricos, novos espaços culturais, e a dinamização de património material e imaterial. São quatrocentos milhões. Oito zeros à direita do quatro. Mas, vamos lá. Não é a quantidades de zeros que importa. É algo muito mais substancial. É toda uma noção de cultura. É subordinar a cidade à cultura e propor aos cidadãos uma fruição diferente, mais sensitiva, mais experiencial. Numa palavra, mais “Cultural”.

No final dos anos cinquenta do século anterior, surgiu na Universidade de Birmingham um Centro para os estudos culturais. Este Centro teve um grande impacto na corrente de análise e pensamento da cultura contemporânea. De tal forma que uma das suas figuras de proa, Richard Hoggart, chegou a propor substituir a noção que a divisão de classes deixasse de se fazer mediante o grau económico mas sim baseada na cultura. No mesmo Centro, Raymond Williams idealizou a cultura como alicerce de uma mudança da sociedade.

Nas teias de significados a que estamos ligados, se pensarmos com profundidade sobre os espaços em que vivemos, chegaremos sempre à construção da cidade. As ruas, os edifícios, os caminhos, as lógicas de percurso. Enfim, tudo aquilo que os pés calcorreiam e os nossos sentidos percecionam.

Por isso, subordinar uma cidade à sua cultura é pensar estruturalmente em tudo, desde a recuperação do património à “plantação” de dinâmicas artísticas e sensitivas, passando pela tarefa de planeamento, na coerência e num significado de um projeto amplo de cidadania. Um projeto com identidade, com uma ideologia multicultural, de liberdade, de igualdade, de impulso ético e sustentável.

Vejamos um mero exemplo a alterar. Só a muito custo um visitante percebe que a Rua da Sofia guarda o tesouro de maior potencial para entrar na Baixa. Quando em 1537 se procedeu em definitivo à transferência da universidade para Coimbra, esta foi instalar-se naquela que muitos investigadores dizem ter sido a maior rua da Europa: a Rua da Sofia. Não seria importante comunicar visual, cultural e arquitetonicamente esta ideia? Este é o polo zero de uma das mais importantes universidades europeias e do mundo! Há comerciantes que dão o máximo para ali permanecer. Tanto ali como em toda a Baixa. Há algumas atividades fomentadas. Mas tem de haver planeamento estratégico e um forte investimento subordinado à cultura. Essa reformulação, esse upgrade, essa ousadia, esse sonho, essa vontade, essa energia, essa não resignação, são necessários. É isso que marca uma cultura que se quer capital.

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