Um homem saiu de casa por volta das sete e meia da manhã. A pulseira mostrou-lhe quantas horas havia dormido e a qualidade de sono nessa noite. Disse-lhe também qual a frequência cardíaca. Apenas três andares o distanciavam da porta de saída do prédio. Carregou no zero do elevador e olhou o papel colado no espelho: “sorria, está a ser filmado”. Há muito que aquele papel se encontrava ali, embora ele nunca lhe tivesse prestado atenção. O óculo de uma câmara dava razão ao aviso.

A escassos metros, estacionado junto ao passeio, um carro da Uber aguardava por si. Desde que colocou o cinto, sentado no banco traseiro, até que chegou ao destino, passou um quarto de hora. Pagou com cartão multibanco a curta viagem que o deixara junto à estação dos comboios. Consultou o relógio para constatar que já não tinha muito tempo. Comprou com o mesmo cartão bancário o bilhete para o intercidades e prosseguiu até à caixa multibanco ali próxima, tendo levantado o dinheiro necessário para aquele dia. A máquina emitiu o talão com o movimento da conta.

Calhou-lhe a sorte, ou o azar, de ir sentado ao lado de uma jovem rapariga, que apontava o telefone a si própria enquanto sorria com um trejeito madrugador, que o Instagram expandia. O homem, que apareceu também na foto, foi reconhecido por alguém naquela rede social. Ainda a viagem não tinha terminado e já uma mensagem no Whatsapp dava conta disso mesmo. A estação de chegada ficava próxima de um supermercado, onde entrou para uma compra breve, sendo seguido pelo olhar de um segurança que monitorizava as câmaras de videovigilância, os seus muitos olhos, como o Panótico de Foucault. Aquilo que comprou ficou registado no cartão de pontos do supermercado.

Ao chegar ao emprego, o homem colocou o dedo num aparelho biométrico para picar o ponto. Ligou o computador, ativando assim, automaticamente, todas as suas contas de e-mail e redes sociais. Por curiosidade, fez uma pesquisa da sua morada no Google Earth, vendo-se ao portão a conversar com um vizinho. Era uma imagem de satélite que o descortinava a milhares de quilómetros. Não muito tempo depois iniciou uma videoconferência, em que participaram pessoas de várias partes.

O homem saiu para almoçar. Quis experimentar um restaurante novo, mais moderno. Escolheu o menu através de uma app, onde teve de inscrever os seus dados. No final, pagou com o cartão de crédito. Ali ao lado, alguém fazia um live no Facebook e, pela segunda vez nesse dia, ele apercebeu-se de que voltara a ser exposto.

De regresso a casa, ao final da tarde, apanhou boleia de um colega. O GPS do telemóvel indicara o percurso, guardando-o na sua memória. O radar da Brigada de Trânsito assentara o excesso de velocidade. Pararam numa estação de serviço, abasteceram, pagando com o cartão da gasolineira. Pelo meio fez uma chamada a um familiar e enviou um par de SMS. O uso do telemóvel ativou a localização através das antenas, não deixando dúvidas sobre a sua passagem por aquele preciso local. Saíram da autoestrada tendo passado na Via Verde. Não será necessário dizer que o registo da hora e do local ficou guardado, para que a empresa possa comprovar as cobranças.

Já em casa, o bom do homem comprou uns sapatos online. Para tal, forneceu o seu nome, morada, e-mail e telefone, bem como os dados do cartão de crédito. Concluída a operação, pesquisou no motor de busca uma loção para a barba e apareceu-lhe ao longo da noite um rol de promoções a outras loções, sem que ele tivesse indicado que as queria receber. Deitado no sossego da cama, enquanto visualiza um anúncio, uma app fez o reconhecimento da sua expressão facial e interrompeu o vídeo, passando para outro. “De facto”, pensou o bom do homem, “eu nem estava a gostar”. E prosseguiu sem se questionar por que motivo aquela aplicação invadira o seu gosto, o âmago de si.

Viu no telefone um e-mail interpelando-o para assinar uma petição a repudiar a app Stayaway Covid. O homem nem pensou das vezes. Assinou, pois claro. Até porque ele é contra qualquer invasão à sua privacidade.

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