Estamos a fazer o mapa da viagem, disse ele, subitamente. Disse-o sem que as ideias tropeçassem nas palavras. Por isso a resposta saiu pronta, como um pirilampiscar de olhos. Disse-o espontaneamente e sem obstruções. Como se fosse fácil justificar o que andam os físicos e os astronautas a fazer pelo espaço, quando há tanto para fazer na terra. “Estamos a fazer o mapa da viagem”. Ele disse-o quando questionado durante uma conferência sobre o cosmos e o telescópio James Webb. Ele disse-o apenas. Vigoroso, arrojado, de timbre contagiante. Ele é o professor e físico Fernando Carvalho Rodrigues, pai do satélite português.

Eu, que sempre odiei filmes de ficção científica e viajo silenciado para outros mundos quando o tema de conversa é o Star Wars e outros afins, e que prefiro um herói terreno a um ser de orelhas deformadas, fato bizarro e poderes sobrenaturais, fiquei com aquela resposta a gotejar no pensamento.

Pensei nos navegadores de há quinhentos anos e na mesmíssima resposta que poderiam ter dado a quem os interpelasse sobre o que andavam a fazer nas águas infinitas quando tanta terra seca, tantos conflitos e tantas necessidades reclamam a nossa atenção. “Estamos a fazer o mapa da viagem”, haviam de ter dito. Continuamos sem poder viver debaixo de água. Mas atravessamo-la para chegar a novos sonhos.

Imaginar os mundos para lá do nosso mundo afigura-se uma miragem esdrúxula. Basta que tomemos consciência de que desde o mais profundo fundo do oceano até ao Monte Evereste, que é o cume mais elevado do planeta em relação ao nível do mar, com 8.848 metros de altitude, dista uma linha com cerca de vinte quilómetros. Cerca de 99,5% desse espaço está fora do nosso alcance. Ou seja, dentro de água, abaixo de certa profundidade, não aguentamos a pressão e as nossas veias rebentariam – para não falar na impossibilidade de respirarmos –, e acima de uma altitude de cerca de 7.000 metros, a esmagadora maioria dos que tentou não sobreviveu para contar a história.

Poderíamos argumentar que existe o avião, que voa mais alto e tem condições induzidas para a nossa integridade física. É verdade. Contudo, há coisas que o ser humano ainda não conseguiu compreender. Uma delas tem a ver com o maior desgaste físico das mulheres na sequência de viagens espaciais. Aliás, pouco ou nada sabemos sobre o universo, apesar dos avanços da ciência.

Há uma espécie de anedota que justifica o fascínio do ser humano pelo cosmos. Um físico diz a um amigo que está a pensar em escrever um diário, mas que não será para publicar. Servirá apenas para registrar os factos, para informação de Deus. O amigo pergunta ao físico se ele não acha que Deus já conhece os factos. Ao que o físico responde que sim, certamente Deus já conhece os factos, só não conhece ainda a nossa versão dos factos.

O telescópio espacial James Webb conta com a mais avançada tecnologia de sempre e é um observatório permanente do que se passa no espaço. Foi lançado em dezembro de 2021 para revelar dados sobre os primórdios do universo, pesquisando a luz das primeiras estrelas e galáxias que se formaram no Universo após o Big Bang e assim estudar os sistemas planetários e as origens da vida.

O que sabemos leva-nos a intuir que o planeta Terra não durará para sempre. Seja pela finita vida útil dos corpos do universo, seja pela ação nefasta que o ser humano vem exercendo sobre o meio, ou mesmo pelos botões vermelhos que podem ser premidos numa sala blindada do Kremlin, da Coreia do Norte ou do Pentágono americano, um dia isto acabará. Deixaremos de ter lugar aqui. É bom que alguém se entregue à tarefa de fazer o mapa da viagem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *