Era uma vez um menino que trocava dos vês pelos fês e os fês pelos vês. Em vez de vazia ele escrevia fazia. A valsa era falsa. Para ir à vila ficava na fila, em vez de farinha ele trazia a varinha. Em vez da faca desenhava uma vaca. O marido da vaca era o foi, porque de tanto lhe dizerem que era vê de vaca e bê de boi, o menino baralhou-se. Mas os seus erros de disortografia, esses, soavam a poesia. Assim, os rios não corriam para a foz, mas sim para a voz. No lugar da vala abriu uma fala.

Um dia o menino precisou de escrever faxina e, com medo de se enganar, ele corou. Porque há coisas que devem ser ditas com respeito. O sangue correu-lhe quente nas feias, ou melhor, nas veias. Para que ninguém visse, o menino cruzou os dedos, mas fez vigas em vez de figas.

Em vez de voto, ele preferia foto. E consigo nada ia à falência, antes adquiria valência. No carrossel, a girava girafa, ou melhor, a girafa girava. Acostumada aos seus erros, no lugar de um exclamado valha-nos Deus, a professora suspirava falha-nos Deus. E tudo ia assim, correndo com a normalidade das letras que trocam de lugar. E das coisas que ganham outros sentidos. Tudo podia ser ferdadeiro, tudo podia ser valso.

O menino cresceu, continuando a trocar os vês pelos fês e os fês pelos vês. Sempre omitiu o defeito, embora nunca se tenha importado muito com isso. Nem sequer agora, ao contar esta história de si próprio.

O frenesi da correção deixou de ser uma luva-luva, às vezes os erros assentam-nos que nem uma lufa. Vocês perceberam. O menino já adulto continua a errar, só que erra cada vez melhor. Passou a evitar palavras difíceis que têm vês e fês por todo o lado. Assim do tipo efervescente, fivela e faz-favor. Os comprimidos efervescentes são os das borbulhas, as fivelas não passam de um adereço, e um tenha a bondade soa melhor que um faz-favor.

Todos temos os nossos defeitos e é bom que possamos rir-nos de nós próprios. É isso que quero dizer a todos os meninos. Aos pequenos e aos grandes.

Fitória, fitória, acabou-se a história.

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