Em cinquenta anos, o Homem chegou à lua, colocou vários satélites no espaço, mostrou-nos a beleza cósmica, pôs o James Webb a demonstrar como se formaram as galáxias há 13 mil milhões de anos, e anunciou que em 2024 terão início as primeiras viagens comerciais a Marte. Visto de lá de cima, imagino que Portugal seja um belo e pequeníssimo ponto banhado pelo azul atlântico, onde, nesses mesmos cinquenta anos, um dos feitos extraordinários que alcançou foi não conseguir decidir coisa nenhuma em relação a um simples aeroporto.

Já lá vão cinco décadas desde as primeiras discussões. De vagar em vagar, a proclamada intenção de construir o novo aeroporto chegou quando os estudos – sempre os estudos – garantiam que em 2005 o aeroporto de Lisboa (Portela) começaria a colapsar. Logo, era urgente uma alternativa.

Desde então já foram avaliadas mais de duas dúzias de localizações. Entre elas Rio Frio, Ota, Alverca, Montijo e Alcochete. Isto sem contar com o Grande Aeroporto Internacional de Coimbra, que o então edil Manuel Machado transformou em anedota nacional, dizendo que com coisa pouca faria um aeroporto no sítio das avionetas. A chacota prejudicou a seriedade do tema. A questão foi salva com uma nova possibilidade entre Soure e Pombal. Os autarcas das comunidades intermunicipais de Coimbra e de Leiria juntaram-se e concordaram que valeria a pena estarem unidos numa ideia comum. Fizeram bem. Mesmo não servindo de alternativa ao aeroporto de Lisboa, o centro tem necessidade de uma infraestrutura que alavanque o seu turismo, a sua economia, as suas gentes.

De todos os estudos, talvez o da Ota tenha sido o que chegou mais perto de ser feito. Com 1.400 hectares, contra os 500 do aeroporto de Lisboa, previa-se a adjudicação para 2002 e a inauguração para 2009. Lisboa ficaria apenas a 48 quilómetros. Mas esta localização também permitiria que ficasse a 80 quilómetros de Leiria e a 160 de Coimbra. Com a alta velocidade ferroviária – outro projeto que está fadado a não arrancar – o trajeto passaria a ser mais rápido e confortável.

Mas logo vieram outros estudos – mais estudos –, a dizer que a Ota seria um desastre económico. Que nem pensar. Nós, Otários, deixámo-nos levar. Sabe-se hoje que o adiamento da decisão custa a Portuga cerca de sete mil milhões de euros e 28 mil empregos. Como? Em perda potencial de riqueza gerada com o fluxo de passageiros e mercadorias do nosso País e a consequente perda de receita fiscal. Em 2008 tudo parou. Como no jogo do monopólio, estamos fadados àquela carta que nos força a voltar à casa de partida.

Estudos de última geração – mais estudos – deitam os seus grandes olhos para o sul do País. Mesmo que dos quatro aeroportos existentes, três deles já se situem precisamente aí. Há um qualquer magnetismo que leva a que os decisores, chegados à capital, não consigam movimentar o pescoço senão para sul. Esquecem a necessidade de combater assimetrias, de valorizar o interior, de descentralizar, de colocar as regiões a norte de Lisboa no mapa de investimento.

Gerou-se uma falsa unanimidade em torno de Montijo e Alcochete. Veja-se, por exemplo, que Alcochete exige um avultado investimento em infraestruturas rodoviárias e ferroviárias e implica ainda a construção de uma terceira travessia sobre o Tejo. A isto chama-se entropia. Andamos a engordar o corpo de Lisboa e a adicionar excessos às suas orbiculares protuberâncias, aos ditosos refegos, anafados e untosos. Dado o risco de hipertensão, o remédio tem sido injetar-lhe mais estradas, mais carros, mais pontes, muito-mais dinheiro. Como se fizesse sentido dar mais comida a quem precisa de emagrecer e menos a quem precisa de engordar. Se não houvesse outro motivo, este já seria suficiente para me afirmar regionalista.

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