Ninguém devia usar palavras que os bêbados arrastadamente não saibam pronunciar. Isto era o que costumava dizer-me um velho amigo. Ele não era entendido em escrita, nem em nada que implicasse o uso zeloso da gramática, mas no que toca a experiência de vida, poucos havia como ele. Via-o seguir aos ésses pela rua, dizendo palavras fáceis.

Esta tarde, quando abri uma pasta no computador para procurar um ficheiro, reparei que ao longo dos anos fui acumulando aquela lixeira digital que funciona como a gaveta perra da cómoda de uma divisão esconsa da cave. Despejo para lá os e-mails que não me apetece ler, aqueles que adio para um dia mais tarde, se Deus quiser. Mas Deus não tem querido. Quando me perguntam se não li o que me enviaram dou a desculpa habitual: “deve estar no spam”. E não é mentira. Guardo-os por serem importantes, mas dou-lhes ordem de marcha assim que ponho a vista em cima de cabeçalhos fastidiosos. Daqueles que são de uma chatice tão grande que equivalem a uma tarde inteira numa repartição pública, em pé e com gente a espirrrar para cima de nós, a ouvir modelos, alíneas e decretos.

Pergunto-me que bicho mordeu a certas pessoas para usarem a linguagem com tal aborrecimento e para que sejam tão abusivamente solenes, tão esmeradamente fastidiosas, tão meticulosamente enfadonhas. Note bem: estas que acabei de escrever nem sequer são as palavras que os chatos usam. As piores são as que me caíram no colo esta tarde.

Há termos que soam a palavrões, como: procrastinação, aquiescência, resiliência, paradigma, holística, recapitalização, sempiterno, idiossincrasia, improcedência, pesporrência. Descobri que há uma espécie de cátedra que não consegue dizer uma frase inteira sem meter pelo meio perdigotos deste tamanho, julgando que com isso dá de si um ar erudito.

De todos estes palavrões, a procrastinação é o que mais me tira do sério. Sabia que até há uma escala para procrastinadores? Já não bastava a palavra que nos faz sentir pecaminosos pecadores por deixarmos as coisas para depois, como há até uma medida que avalia a nossa procrastinação. Ora…!

Tive de ler duas vezes para aferir se não se tratava de um truque de marketing, ou de um lapso qualquer. Uma mensagem dizia assim: “Não procrastine mais. Deixe de lado as suas idiossincrasias, seja resiliente e junte-se a nós. Quer?”. Não, respondi.

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