Conta-se que, encontrando-se com Deus, um homem perguntou-lhe: “Ó Deus, é verdade que para ti um milhão de anos equivale a um segundo e um segundo equivale a um milhão de anos?”. Deus confirmou: “Assim é”. O homem prosseguiu: “E um milhão de euros é como se fosse um cêntimo e um cêntimo é como se fosse um milhão de euros?”. Deus retorquiu: “Assim é”. O homem então, desnovelando o enigma, pediu: “Então, arranja-me aí um milhão de euros”. Ao que Deus respondeu: “Aguenta só um segundo”.

A noção de tempo é diferente para cada um de nós. Quanto tempo leva o último minuto de jogo para a equipa à procura de marcar um golo nos derradeiros instantes? E para a equipa que, em sufoco, luta por defender o resultado? Por isso, há quem defenda que tempo é o que contabilizamos para cada coisa que ocorre. E há também quem sustente que o tempo não passa de uma invenção do Homem. De certa forma, temos de reconhecer que há alguma lógica nessa proposição, porque se o Homem não existisse, que sentido teria o tempo?

Ainda que o tempo exista, é comum dizermos que não temos tempo. Isto coloca-nos num dilema: O que é o tempo? Como dizia Santo Agostinho (354 – 430), se ninguém me perguntar, eu sei; porém, se o quiser explicar, já não sei.”

Proponho, por isso, que partamos à procura do tempo. As primeiras civilizações não sabiam medi-lo. Constatavam a mudança de estações, o cair da noite, ou o raiar do dia. Foram os babilónios, que viveram entre 1950 a.C. e 539 a.C., os primeiros a marcar a passagem do tempo. Ao construírem o relógio de sol, dividiram o dia em 12 partes e depois em 24, que são as horas que usamos até hoje. Contudo, demorou muito tempo até alguém medir o tempo com precisão. O relógio mecânico só surgiu no século XIV e atrasava 15 minutos por dia, ou seja, um dia a cada três meses! Em 1656, com o relógio de pêndulo, o atraso diminuiu para um minuto por semana. A partir de 1967, o Sistema Internacional de Unidades definiu a duração do segundo com base na radiação do átomo de césio 133.

Por isso, o relógio é, para muitos – para mim também –, a maior invenção do tempo moderno. É a invenção que verdadeiramente revolucionou a nossa forma de viver como nunca antes tinha acontecido. Hoje temos uma infinidade de máquinas que nos ajudam a administrar o nosso tempo. Elas são, no fundo, máquinas de poupar tempo, como o telefone, a bimbi, o avião… Mas há também máquinas de programar o tempo, como os despertadores, os cronómetros, as agendas eletrónicas…

Temos de perguntar, todavia, por que continuamos permanentemente neste estado patético, de urgência em urgência. Qual o motivo pelo qual a velocidade tomou conta da sociedade, forçando também o pensamento a acelerar? Que sentido tem exibirmos como um troféu as crianças que aprendem a ler ainda antes de entrarem para a escola?

A verdade é que, mal nascemos, inicia-se uma contagem decrescente e deveras angustiante. O futuro aguarda-nos em suspense. Mas de novo voltamos a uma das maiores ambiguidades da humanidade. O futuro nunca chega, o passado não existe, e o presente é apenas um instante. Mas, veja-se, o presente só é tempo enquanto não cessa de se anular. Se só existe o presente, temos dificuldade em captá-lo, pois ele não passa de um ínfimo instante. Santo Agostinho trouxe uma posição curiosa sobre este tema, dizendo que “é impróprio afirmar que os tempos do tempo são o passado, o presente e o futuro. Mais adequado seria dizer que os tempos são o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, e o presente das coisas futuras.”

A urgência desconstrói a noção convencional de tempo. E isso gera, naturalmente, ansiedade. A cada ano são apresentados novos recordes de venda de ansiolíticos. Que vida é esta em que, ainda antes de acordarmos, já temos dezenas de e-mails e de mensagens à espera de resposta? E quando demoramos mais um pouco a responder, ou mesmo se não respondermos no imediato, passamos a ser tomados por indelicados, pois não estamos no padrão que é esperado pela sociedade da urgência.

Vivemos ansiosos pela próxima notícia, que está a pirilampiscar no telemóvel. Partilhamos a nossa privacidade nas redes sociais. Já não nos desligamos. Já não estamos online nem offline. Estamos onlife. E isso desmembra a nossa identidade. Desvia-nos do nosso oriente. É uma desorientação.

O tempo, em vez de nos conceder um aprofundamento e um maior autoconhecimento, gera distrações, dormência, estado de anestesia permanente. Desumaniza-nos.

Pela minha parte, desculpe o tempo que lhe fiz perder.

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